Da reforma tributária à reforma empresarial

 

Na semana passada, conversei com um empresário que conduz sua empresa há mais de duas décadas. Gestão enxuta, bom faturamento, equipe fiel. Ao tocar no tema da reforma tributária, ele respondeu com tranquilidade: “Isso é coisa pro contador resolver.”

Essa frase, tão comum quanto perigosa, resume exatamente o ponto em que muitos empresários ainda estão e onde não poderão mais permanecer.

A reforma tributária não é apenas uma mudança técnica nas alíquotas. Ela representa uma transformação profunda no modo como as empresas serão administradas no Brasil. Segundo matéria recente da revista Exame, apenas 9,5% das empresas brasileiras se declaram prontas para a reforma. O dado é alarmante, mas ao mesmo tempo revelador. O empresário que se organizar agora estará numa posição extremamente competitiva nos próximos anos.

A grande virada está no fato de que o tributo deixa de ser apenas uma obrigação contábil e passa a ser uma decisão de gestão. O que antes era tratado como tarefa operacional, agora se torna estratégico. A partir desse novo modelo, a obrigação acessória se transforma em obrigação gerencial e a negligência administrativa passa a representar risco pessoal.

Imagine um futuro muito próximo em que, ao realizar uma venda, o sistema já destina automaticamente o valor líquido para a conta da empresa e, no mesmo instante, o valor do imposto segue direto para os cofres públicos. Sem atraso, manobra ou improviso. Esse futuro não é mais hipótese. Ele faz parte do desenho do novo sistema.

Estamos entrando definitivamente na era da Governança Tributária. E a principal mudança não estará apenas nos tributos em si, mas nos “ERPs”, nos sistemas de gestão e na estrutura administrativa das empresas.

Em termos práticos, muitos tributos sobre o consumo serão unificados em dois grandes pilares: IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). Com isso, a gestão dos créditos tributários passa a valer ouro. Quem souber gerar, controlar e utilizar esses créditos com inteligência terá uma vantagem competitiva real.

Outro ponto decisivo é que a apuração passa a ser assistida. O governo terá praticamente visão total das transações econômicas. O espaço para informalidade diminui drasticamente. O que antes era oculto e inocente passa a ser totalmente iluminado pelos sistemas.

Esse movimento marca a entrada definitiva das empresas na era da inteligência empresarial. A lucratividade não estará mais apenas no produto, no preço ou no volume, mas na capacidade da gestão de protagonizar os processos, tomar decisões baseadas em dados e estruturar corretamente seus riscos.

Dentro desse novo ambiente, entendo que os quatro pilares centrais da governança moderna passam a ser: Jurídico, contábil, financeiro, gestão de riscos e continuidade empresarial.

Empresas que tratarem esses pilares de forma integrada não apenas sobreviverão, crescerão em um ambiente mais hostil, porém mais justo.

A reforma tributária vai passar. Isso é fato. A pergunta que fica é outra:
sua empresa estará entre as que permanecerão?

No novo Brasil empresarial, vencerá quem entender que a verdadeira mudança não é apenas fiscal. É estrutural, estratégica e irreversível.

Cláudio Siqueira Junior, especialista em gestão de riscos e planejamento patrimonial sucessório.



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