E se tudo acabar amanhã?
Hoje quero contar a história de Jeremias. Um garoto da periferia, filho de um metalúrgico e de uma dona de casa. Cresceu com mais quatro irmãos, enfrentando uma batalha diária para sobreviver sem se envolver com drogas ou más companhias.
Era a década de 1980. Jeremias estudava em uma das tradicionais “E.E.P.G.” da época. Desde muito jovem, alimentava o sonho de ter o próprio negócio, constituir uma família e mudar a realidade em que vivia. Não se conformava com a sua situação e sonhava todos os dias com um cenário mais próspero e abundante.
Com muito esforço, conseguiu se formar na faculdade — trabalhar e estudar ao mesmo tempo lhe custou caro, tanto em energia quanto em recursos. Passou por diversas empresas, acumulando experiências, até que, já no auge dos seus 40 anos, decidiu empreender. Um desafio complicado, mas que foi superado com muito esforço e em poucos anos o negócio prosperou muito.
Casado havia mais de 10 anos e com dois filhos, Jeremias conquistou o primeiro imóvel em um condomínio de alto padrão. A partir dali, veio a ascensão: investiu em imóveis, galpões comerciais, carros, e garantiu muito conforto à família. Viajavam ao exterior três vezes por ano, conhecendo praticamente todos os continentes.
A esposa, que já não trabalhava há muitos anos para se dedicar aos filhos e à rotina doméstica, mal sabia a rotina intensa do marido na empresa. Jeremias era quem centralizava toda a administração dos negócios e do patrimônio da família. Motivo pelo qual esteve muito ausente da família para se dedicar a gestão de tudo. Mesmo enquanto estava nas viagens, acessava os e-mails, ligava para clientes e nunca desligava o celular.
Até que, de forma abrupta, um acidente automobilístico tirou-lhe a vida. Uma fatalidade. Uma tragédia.
A família, já fragilizada pela dor, mergulhou no caos da falta de planejamento. A reserva financeira deixada era suficiente apenas para seis meses. Em menos de um ano, a empresa faliu. Diversos imóveis foram penhorados por causa de processos trabalhistas e dívidas acumuladas com credores.
O cenário se deteriorou rapidamente. Até a casa onde viviam precisou ser vendida. A família mudou-se para um imóvel menor, pressionada pelos altos custos de vida. A esposa sequer sabia quanto custaria um inventário, tampouco por onde começar.
Uma vida inteira de sonhos, trabalho duro e conquistas se desfez diante da falta de preparo para o inesperado.
Segundo dados recentes, menos de 15% dos brasileiros possuem algum tipo de planejamento sucessório. A maioria das empresas familiares não sobrevive à segunda geração. E o custo de um inventário pode consumir até 20% de todo o patrimônio deixado.
Quantas histórias como essa você já ouviu? Ou talvez tenha vivido de perto?
Pois é… nós, brasileiros, não gostamos de pensar no futuro. Vivemos o agora como se nunca fôssemos partir.
Cláudio Siqueira Junior, especialista em gestão de riscos e planejamento patrimonial sucessório.

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