“Para quem eu fiz tudo isso?”
João sempre foi um homem de hábitos simples. Acordava cedo, tomava seu café preto sem açúcar e seguia direto para a empresa que fundara com tanto suor nos anos 80. Começou com uma portinha, fabricando e vendendo, de porta em porta, doce de leite e goiabada em lata. Dez anos depois, abriu um pequeno mercadinho — na época chamado de quitanda — e hoje o negócio se transformou em uma rede de supermercados com alto faturamento. Construiu um império regional admirado e muito respeitado.
Na cidade, era conhecido como “Seu João Doceiro”, sinônimo de trabalho duro, persistência e integridade. Mas, dentro de casa, era apenas o esposo da Elisa, pai do Lucas e da Natália — e essa era uma relação muito mais difícil de administrar do que qualquer negociação empresarial. João era o tipo de pai que satisfazia todos os desejos dos filhos e dizia sempre: “Quero dar aos meus filhos o que eu nunca tive.”
Aos 68 anos, João começou a sentir o peso das decisões que havia postergado. Frustrou-se por ter negligenciado e adiado um bom plano de sucessão. A saúde já não era a mesma, e os filhos, agora adultos, evitavam qualquer conversa que envolvesse a empresa. “Isso é seu, pai. Não é a nossa praia”, diziam, com um desconforto no olhar que João conhecia bem. Essas conversas eram o estopim para discussões em família. Foi então que ele desabafou, numa dessas conversas truncadas: “Mas eu fiz tudo isso pra vocês...” Silêncio.
O que João não sabia — ou não queria admitir — é que o que ele fez foi por ele. Pela sua história. Pela necessidade de realização pessoal e profissional. E, claro, para ter a dignidade de cuidar da família. Havia amor, sem dúvida. Mas não foi um pacto, nem uma escolha feita em conjunto.
Os filhos seguiram caminhos diferentes: Natália tornou-se arquiteta em outra cidade; Lucas, dentista, tinha seu consultório e dava aulas na faculdade de odontologia. Nenhum deles se via à frente da empresa, tampouco administrando uma rede de lojas com mais de 800 funcionários.
A cena de João se repete em milhares de famílias empresárias pelo Brasil. A sucessão familiar, mais do que um processo jurídico ou estratégico, é um drama humano. Envolve sentimentos, memórias, mágoas, disputas silenciosas, e acima de tudo, uma enorme dificuldade: falar sobre o futuro sem negar o passado.
Planejar a sucessão não é falar sobre a morte. É falar sobre continuidade.
Voltando à história de João, a mudança começou quando ele teve coragem de perguntar aos filhos não o que eles queriam da empresa, mas o que desejavam da vida e como poderiam manter a principal fonte de renda da família ativa. A partir dessa escuta, entenderam que era possível transformar o negócio da família em um patrimônio com propósito, mesmo que nenhum dos dois assumisse a operação diretamente.
Começou, então, um processo de profissionalização da gestão, com formação de gerentes e diretores. Em conjunto, definiram como Natália e Lucas acompanhariam os resultados e os responsáveis pela gestão. Hoje, já discutem o próximo passo: como organizar a sucessão patrimonial da família.
Cláudio Siqueira Junior, especialista em gestão de riscos e planejamento patrimonial sucessório.
Claudio.siqueira@prudentialfranquia.com.br
19 98223-2300

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